Um equipamento produzido do outro lado do planeta pode estar na nossa clínica em poucos dias. Publicações científicas estão a um ou dois cliques de alcance. Desde que seja possível arcar com os custos, os recursos de trabalho estão disponíveis a qualquer profissional da Estética.

A variável que realmente nos desafia na rotina clínica é o paciente.

Além do histórico de saúde, precisamos lidar com outro fator de impacto: a expectativa em relação ao tratamento e toda a carga emocional que orbita em torno dessa idealização. 

A avaliação é o melhor momento para identificar essas aspirações, além, é claro, das reais necessidades do paciente.

Nesses quase 10 anos de prática clínica, eu pude confirmar a eficácia dos sistemas e métricas de avaliação em Estética. E o resultado de tudo isso eu acabo de transformar em livro, o Bases e Métodos de Avaliação Aplicados à Estética, que tem também a minha colega e amiga Luana Rogéri como autora. 

Neste post, eu apresento 5 dicas que considero fundamentais para que um profissional da Estética seja assertivo na avaliação.

1 Seja claro durante a entrevista

Quando eu era bolsista na faculdade, aprendi uma grande lição sobre a forma de questionar os pacientes. Na época, eu e colegas de outras especialidades fazíamos atendimentos domiciliares.

Uma das pacientes que atendemos sofria de diabetes, e percebemos que, por mais que tratássemos, as feridas de pele não melhoravam. Quando perguntávamos se estava consumindo açúcar, ela respondia que não.

Não entendíamos por que ela tinha uma taxa de glicose tão alta, uma vez que sua alimentação estava livre de açúcar. Apenas depois de algum tempo, descobrimos que ela havia substituído o açúcar por melado.

Para aquela paciente, a substituição fazia sentido, pois em nenhum momento dissemos que ela deveria deixar de consumir outros derivados da cana. 

Quem errou? Eu, não a paciente!

Cabe sempre ao profissional investigar ao máximo possível os hábitos de seu paciente, descartar possibilidades e se expressar de forma que o paciente compreenda a parte do tratamento que lhe cabe.

A entrevista é uma das etapas mais importantes da avaliação. Trata-se de uma habilidade que pode ser adquirida com a experiência.

Tipos de perguntas que devem ser feitas

Existem três tipos de perguntas que devem ser feitas durante a entrevista de avaliação:

  • Perguntas abertas: sugere-se que a entrevista comece com esse tipo de pergunta, pois apresenta ampla liberdade de resposta. Exemplo: “qual é o motivo de sua consulta?” ou “por que você está na clínica de estética?”.
  • Perguntas focadas: o profissional delibera a área a ser questionada, mas deve conceder uma considerável liberdade de resposta. Exemplo: “descreva a sua alteração cicatricial” ou “quais cosméticos você usa?”.
  • Perguntas fechadas: admitem como resposta apenas “sim” ou “não” ou um número, como idade, número de filhos, vezes ao dia etc. Exemplo: “você usa protetor solar todos os dias?” ou “quantas vezes você reaplica o filtro solar?”. 

Tipos de perguntas que devem ser evitadas

Já estes dois tipos de perguntas devem ser evitados:

  • Perguntas dirigidas: direcionam o paciente à determinada resposta. Exemplo: “sua pele está menos oleosa, não está?” ou “você emagreceu, não emagreceu?”.
  • Perguntas compostas: são frases que trazem duas ou mais perguntas no mesmo instante, sem dar tempo ao paciente para que responda a primeira delas. Exemplo: “me explica quando surgiram as estrias; você fez uso de corticoide e sua mãe ou irmã também as tem?”.

2 Atente para a comunicação não verbal

Mais de 90% da comunicação ocorre de forma não verbal. Sinais silenciosos do corpo são capazes de revelar o estado de espírito do paciente naquele dia, ou sua reação diante de, por exemplo, uma indicação de tratamento.

A imagem a seguir mostra a reação de frustração em uma paciente que, como podemos notar pelo semblante triste, esperava resultados mais satisfatórios. 

Quando ocorre divergência entre a comunicação verbal e a não verbal, prevalece a mensagem expressa de forma não verbal. É importante lembrar disso quando estivermos nos comunicando com nossos pacientes, pois isso também se aplica à nossa postura.


Na imagem acima, a inclinação do corpo e a inquietação do pé da profissional sugerem insegurança. Outros sinais que podem ocorrer nesses casos são pausas ou uma ligeira gagueira durante a conversa, o que, obviamente, não é nada bom quando estamos apresentando o plano de tratamento ao paciente.

Esses são apenas dois exemplos dos diversos que podem surgir na relação profissional-paciente. É importante estudar sobre esse assunto e ter atenção a qualquer manifestação gestual e verbal, sempre considerando o contexto clínico e prováveis fatores que possam despertar reações do paciente. 

3 Cuidado ao tratar gordura! 

A vastidão de recursos disponíveis para tratamentos corporais não substitui os cuidados básicos que a prática clínica exige, sendo os três pontos a seguir os que considero principais.

Verifique o perfil lipídico

Antes de aplicar um tratamento de remodelamento corporal, solicite uma análise do perfil lipídico do paciente. É comprovado que mecanismos de ação utilizados em recursos para o tratamento de gordura podem desencadear alterações lipídicas.

É fundamental investigar se o paciente tem histórico de esteatose hepática, sendo que nesse caso é preciso um acompanhamento interdisciplinar. Não pode haver mobilização de gordura (ou seja, nada de radiofrequência, criolipólise nem termogênicos, por exemplo), pois há risco de sobrecarga no fígado.

Existem excelentes equipamentos com registro na Anvisa que podem ser usados em clínicas e que, por meio de um teste rápido, medem colesterol, glicose e triglicerídeos.

Havendo alteração, é dever do profissional da Estética encaminhar o paciente a um especialista. Apenas a partir do controle desses indicadores, comprovados em exames laboratoriais, é seguro prosseguir com o tratamento estético. 

Diástase do reto abdominal X gordura

A avaliação clínica é fundamental para que você entenda se você está lidando com um caso de gordura localizada ou de diástase.

Exame de palpação

Se a paciente tem o abdome globoso, investigue se há histórico de gestação, pois isso é comum em mulheres, especialmente as que tiveram gêmeos. Aqui, o foco deve ser a musculatura.

Você pode verificar isso com um exame de palpação. O paciente deve estar deitado, com as pernas suspensas e flexionadas em 90°. Tateie a região logo abaixo à cicatriz umbilical do paciente, e verifique se há afastamento da musculatura; caso sim, é indicativo de que a paciente tem diástase infra-umbilical.

A mesma verificação deve ser feita na região acima da cicatriz umbilical, e agora o paciente deve também flexionar o tronco para cima. Se perceber o afastamento muscular, o caso é de diástase supra umbilical.

Tratamento

Além de gestantes, a diástase pode ocorrer em pacientes de pós-cirurgia bariátrica. Nesse caso, apenas recursos como a radiofrequência ou a terapia combinada, que comumente usamos para tratar gordura e flacidez, não servem.

As melhores condutas para realinhar a musculatura são plataforma vibratória e correntes excitomotoras.  

Perder peso X emagrecer

Perder peso é diferente de emagrecer. Peso é uma medida referente à força que um corpo exerce contra a gravidade, enquanto massa é a quantidade de matéria que compõe esse corpo.

É a massa que nos interessa. Para medi-la, os principais recursos são adipometria e bioimpedância elétrica. A perda de peso pode ocorrer em paralelo ao emagrecimento, mas não é um critério determinante.

4 Seja detalhista e incentive o uso de protetor solar 

Cada vez mais, recebo pacientes de idade muito avançada ou que, por causa dos fatores exógenos, apresentam alto grau de envelhecimento tegumentar facial. Nitidamente, muitos casos são cirúrgicos. 

A esses, gentilmente eu recuso, com sugestão que procurem profissional capacitado para ritidectomia. Acredito que ser transparente desde o começo é o primeiro passo. 

A segunda conduta que eu adoto como rotineira em meus pacientes de procedimentos faciais é a cultura do uso de protetor solar. Isso é um desafio, especialmente no caso de pacientes homens.

Mas vejo como parte do meu trabalho: por algum canal de comunicação, eu e minha equipe enviamos lembretes individuais aos pacientes, incentivando esse hábito.

Identifique o tipo de pele e o fototipo

A falta de atenção ao fototipo e ao tipo de pele é a grande responsável por intercorrências com peelings químicos.

O pH e a concentração do ácido para peles resistentes não são os mesmo daqueles usados em peles sensíveis. O veículo para peles oleosas é um; para peles secas, outro. Essas são variáveis determinantes no plano de tratamento.

O principal instrumento de avaliação do tipo de pele é o Sistema de Baumann, que classifica a pele em 16 categorias a partir das respostas de um questionário aplicado ao paciente. 

Classificação dos fototipos cutâneos segundo Fitzpatrick.

Já para verificar o fototipo, a melhor ferramenta é a Escala de Fitzpatrick. Lembrando que esse aspecto é muito delicado no Brasil, em virtude de termos radiação solar intensa na maior parte do ano em quase todo o território nacional.

Vale ressaltar que os dados coletados na entrevista e o exame visual são importantes para corroborar resultados obtidos por meio dessas ferramentas. 

Cuidado com efeitos indesejados

Sempre que ocorre remoção de gordura do rosto, há diminuição no tecido de sustentação e, por consequência, o rosto fica com aspecto mais envelhecido, pois ocorre o aumento das rugas estáticas. É um efeito perceptível em quem que perdeu muito peso em pouco tempo.


Por isso, muito cuidado ao propor um plano de tratamento com recursos como a radiofrequência monopolar ou radiofrequência em frequências baixas (quando o alcance da onda é maior) no rosto. A única região facial tratada com o objetivo principal de remoção de gordura é a papada

Situação semelhante ocorre com as correntes excitomotoras. Em nenhuma hipótese eu recomendo o uso desse tipo de recurso em tratamentos estéticos faciais. As correntes causam contração da face, e quanto mais contração houver, mais se formam as linhas dinâmicas. 

5 Entenda: avaliação é consulta

Ao agendar o horário, reserve um período de tempo adequado para investigar o histórico de saúde do seu paciente e também para entender exatamente o que ele espera com o seu atendimento.

Depois de apurar todas as informações pertinentes ao desenvolvimento do plano de tratamento, faça as primeiras recomendações de ativos orais ou tópicos.

Indicações para uso em home care como pré-tratamento inserem o paciente no atendimento, além de prepará-lo para a primeira sessão de aplicação da eletroterapia ou terapia manual.  

A avaliação deve ser encarada como uma consulta — primeiro por você; consequentemente, pelo seu paciente.

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