Se você esta pensando em entrar no mercado de Estética, ou mesmo se você já tem anos de prática clínica, você sabe que dominar a técnica da drenagem linfática manual é uma arma fundamental nas clínicas e centros estéticos para tratamento de afecções, como retenção de líquido e celulite.

Hoje vamos abordar diversos tópicos importantes para quem quer dominar ou mesmo quem já aplica a drenagem linfática manual:

1. O que é o sistema linfático e qual a sua função;
2. Quais as partes do sistema linfático e como usá-los a favor do paciente;
3. O que é linfa e qual a sua função;
4. Quais são as 3 principais manobras da drenagem linfática manual;
5. As 4 indicações mais comuns para aplicação da drenagem linfática manual;
6. Contra-indicações (Quando NÃO fazer DLM)
7. Os 7 mitos e verdades mais comuns da drenagem linfática manual;

Introdução à drenagem linfática

O sistema linfático foi, durante séculos, um ponto obscuro dentro do conhecimento da anatomia humana. Somente em 1651 o pesquisador francês Jean Pecquet descobriu em um cadáver humano a existência de um ducto torácico e uma espécie de receptáculo no seu início, que denominou de Cisterna de Chily, também chamada de Cisterna de Pecquet.

A primeira descrição mais complexa do sistema linfático foi feita por um professor chamado de Winiwarter, no século XIX. Posteriormente, em 1912, Aléxis Carrel conquistou o prêmio Nobel de Medicina por seus trabalhos com o propósito de regeneração celular, mostrando o fundamental da linfa nos tecidos vivos.

Já na década de 30, um fisioterapeuta chamado Emil Vodder tratou pacientes acometidos de gripes e sinusites, que viviam na úmida e fria Inglaterra. Em suas observações, manipulando suavemente os gânglios linfáticos do pescoço, percebeu que estes se apresentavam inchados e duros. Intuitivamente, iniciou o uso de uma massagem suave nos locais com a finalidade de melhorar o estado geral dos pacientes. Com os bons resultados, Vodder disciplinou o método e seu primeiro relato escrito foi a público no ano de 1936, em uma exposição de saúde em Paris.

O que é sistema linfático?

O sistema linfático está paralelo ao sanguíneo, e sua função pode ser resumida em auxiliar o organismo a drenar o líquido intersticial e remover resíduos celulares que o sistema sanguíneo não tem a capacidade de coletar.

O sistema linfático pode ser didaticamente dividido em capilares, pré-coletores, coletores, canal ou ducto torácico esquerdo e canal ou ducto linfático direito, linfonodos, válvulas linfáticas e linfa.

Os capilares

São a porta de entrada do sistema linfático: compostas por paredes permeáveis que facilitam a entrada de macromoléculas de proteínas e minerais que não seriam absorvidos pelo sistema venoso no sistema linfático.

Pré-coletores

Estão localizados entre os capilares e os coletores. Suas paredes são formadas por tecido endotelial, tecido conjuntivo e fibras elásticas e musculares. Possuem válvulas e conduzem a linfa no sentido centrípeto.

Coletores

Dão continuidade aos pré-coletores, porém apresentam maior calibre.

Linfonodos

Estão dispostos em trajetos nos vasos linfáticos, normalmente em grupos ou em séries. Os principais gânglios estão nas axilas, região inguinal e no pescoço.

Os linfonodos possuem a função de produzir linfócitos e filtrar a linfa (conglomerado de tecido linfoide, memória imunológica). São depuradores capazes de absorver, metabolizar e destruir alguns elementos provenientes da circulação linfática.

Quando a linfa chega até os linfonodos, é transportada por ductos eferentes até dois grandes coletores principais:

1. Canal ou ducto torácico esquerdo

Termina no tronco das veias jugular interna esquerda e subclávia esquerda.

2. Canal ou ducto linfático direito

Recebe a linfa do lado direito: da cabeça, do pescoço, do tórax e do membro superior direito.

Mas afinal, o que é linfa?

Linfa é o nome dado ao líquido de cor transparente ou amarelo claro proveniente do espaço intersticial que, ao penetrar nos vasos linfáticos, recebeu esta nomenclatura. Conforme explicado anteriormente, a linfa é transportada dos capilares linfáticos para os canais pré-coletores, coletores e coletores principais, de onde irá desembocar nas veias subclávia e jugular, onde se misturarão com o sangue novamente. Devolvem, desta maneira, as proteínas plasmáticas do líquido intersticial de volta ao sangue.

Drenagem linfática manual na PRÁTICA

Atualmente a drenagem linfática manual está representada basicamente por duas técnicas: a de Leduc e a de Vodder. Ambas estão baseadas nos trajetos dos coletores linfáticos e linfonodos, associando basicamente três categorias de manobras:

Manobras Drenagem Linfatica

  1. Manobras de captação
  2. Manobras de reabsorção
  3. Manobras de evacuação

1. Captação

A manobra é realizada diretamente sobre o segmento edemaciado, visando aumentar a captação da linfa pelos linfocapilares.

2. Reabsorção

A manobra ocorre nos pré-coletores e coletores linfáticos, que transportarão a linfa captada pelos linfocapilares.

3. Evacuação

A evacuação ocorre nos linfonodos, que recebem a confluência dos coletores linfáticos.

As quatro indicações mais comuns para aplicação da drenagem linfática manual

1. Gestação

gestante

Durante a gestação ocorre o aumento da secreção de alguns hormônios, que são responsáveis pela retenção hídrica, aumentando o volume sanguíneo em até 50%, e ainda, o organismo amplia em até oito litros a capacidade de reter água. A pressão venosa nos membros inferiores aumenta cerca de três vezes, devido à compressão que o útero exerce na veia cava inferior e nas veias pélvicas, agravando-se na posição ortostática parada, ocorrendo aprisionamento nas pernas e coxas, justificando um edema gravitacional ainda mais acentuado nos membros inferiores.

A drenagem linfática é um dos tratamentos mais indicados para a gestante. Ela ajuda a reduzir a retenção de líquido no corpo, melhora a oxigenação das células e diminui os inchaços típicos da gravidez, que aparecem principalmente no primeiro e no último trimestre.

2. Celulite

celulite

A celulite tem início a partir de uma hipertrofia do tecido adiposo que, segundo alguns autores, vai promover a modificação do esfíncter arteriolar, pré-capilar, alteração da permeabilidade do capilar venoso e ectasia capilar, com consequente transudação de edema. Nestes casos, a drenagem linfática pode auxiliar no tratamento de celulite, pois vai carrear o excesso de líquido contido no meio intersticial. É importante frisar que a drenagem vai auxiliar no tratamento, e não pode ser conceituada com o “carro chefe” no tratamento.

(Artigo completo sobre Celulite AQUI)

3. Cirurgia plástica (pós-operatório)

pos operatorio

Na cirurgia plástica, pode haver alteração estrutural ou funcional dos vasos linfáticos, causados por laceração ou compressão. Essa obstrução mecânica modificará substancialmente o equilíbrio das tensões, resultando inevitavelmente em edema. Dentre as técnicas utilizadas no pós-operatório imediato está à drenagem linfática manual. Esta é reconhecida por abreviar o período de pós-operatório e ser efetiva na resolução mais rápida do edema, hematomas e equimoses.

O tratamento inicia-se na fase aguda, pois a drenagem linfática é um recurso para tratar as consequências das alterações vasculares características da fase inicial (edema). Porém, devemos levar em conta que a cicatrização ainda está recente, e a aplicação da técnica deve ser o mais suave possível, evitando deslizamentos e trações no tecido em cicatrização. A drenagem não oferece risco algum para o paciente em pós-operatório de cirurgias plásticas, somente se for mal aplicada, empregando muita força, rapidez excessiva, ou direção errada.

4. Linfedema/pós-mastectomia

lifedema e pos mastectomia

A alteração básica para a formação do linfedema se deve à falência do sistema linfático. O aumento anormal da concentração de proteínas no interstício resulta em um edema de alta concentração proteica.

As mulheres submetidas à retirada cirúrgica de linfonodos axilares para o tratamento do câncer de mama estão sujeitas a complicações, entre elas, o linfedema de braço, definido como uma condição crônica, na qual existe acúmulo excessivo de líquido, com alta concentração proteica no interstício. Alguns fatores como a radioterapia, as complicações pós-operatórias, a infecção, a linfangite, o nível da radicalidade da técnica cirúrgica e outros são relatados na literatura como fatores desencadeantes ou agravantes do linfedema, o que indica sua natureza multifatorial.

A drenagem linfática manual vai atuar no sistema linfático através de manobras leves e lentas, que vai auxiliar na reabsorção de edemas. Além de diminuir o edema, também ajuda na reparação tecidual (já que o fibrinogênio está presente na linfa), previne a formação de fibroses e aderências, favorece a reconstrução dos capilares linfáticos lesionados e possui efeito analgésico.

Contraindicações

Câncer

Não existe um consenso na literatura quanto à aplicação da técnica de drenagem linfática em pacientes com diagnóstico de câncer. Alguns autores sugerem que a técnica poderia prejudicar o quadro clínico do paciente, a partir da disseminação de metástases da patologia por via linfática.

Tromboflebite

A tromboflebite é caracterizada pelo fechamento parcial de uma veia, causada pela formação de um coágulo sanguíneo (trombo). A afecção acontece geralmente nas pernas, tornozelos ou pés e, antes de qualquer manipulação, se deve encaminhar o paciente à avaliação e tratamento especializado.

Septicemia

Sepse é uma doença sistêmica complexa e potencialmente grave, e é desencadeada por uma resposta inflamatória exagerada do sistema imunológico devido à invasão da corrente sanguínea por agentes infecciosos, sejam eles bactérias, vírus ou fungos. Não se tem relato na literatura sobre os efeitos da drenagem em um quadro clínico de infecção generalizada.

Hipertiroidismo

Mesmo não existindo um consenso na literatura, alguns autores sugerem que o estímulo direto sobre a glândula pode alterar a secreção hormonal. Portanto, a drenagem linfática deve ser realizada sem manipulação sobre a área da tireoide.

Insuficiência cardíaca não controlada

O líquido drenado no sistema tem como destino a veia cava superior, ou seja, a drenagem pode ampliar o fluxo cardíaco, ocasionando um aumento de carga de trabalho no sistema cardíaco.

Gestação de risco

Dentre as afecções de risco no período gestacional, destaca-se a pré-eclâmpsia, que é uma doença de etiologia desconhecida que promove um aumento na resistência vascular periférica e hiper-reatividade a vasoconstritores, e alguns eventos fisiopatológicos, incluindo placentação anormal e hipersensibilidade vascular. Sendo assim, alguns autores sugerem que a drenagem linfática manual pode agravar o quadro clínico da paciente.

Sete mitos e verdades sobre a drenagem linfática manual

1. Qual drenagem linfática é mais efetiva, manual ou mecânica?

Acredito que a drenagem manual, quando aplicada por um profissional habilitado, é mais efetiva, pois o terapeuta consegue regular a pressão e o ritmo das manobras de acordo com cada estrutura anatômica do paciente, de forma mais eficiente que uma máquina.

2. É possível realizar autodrenagem linfática manual?

É possível, mas os resultados não serão os mesmos. A drenagem aplicada pelo profissional vai respeitar aspectos relevantes na potencialização da absorção e drenagem de líquidos, como por exemplo: postura correta do paciente, o ritmo, a pressão e as sequência das manobras.

3. A drenagem linfática manual só foi executada corretamente se a paciente manifestou vontade de urinar após a sessão?

Não. As pessoas que estão com uma sobrecarga no sistema linfático ou possuem uma alta taxa de retenção hídrica costumam sentir vontade de urinar durante ou após a sessão, no entanto, não se pode afirmar que quando a paciente não refere vontade a técnica não foi bem executada.

4. Drenagem linfática emagrece?

Não. A técnica apenas favorece a redução de medidas pelo fato de eliminar líquidos excedentes conforme descrito no artigo. Não existe nenhuma comprovação científica que a drenagem estimula a lipólise e favorece o emagrecimento.

5. Drenagem linfática manual é indicada para gestantes?

Sim. Desde que a gestação não tenha nenhuma complicação ou seja de risco. Conforme descrito no artigo, a retenção de líquidos é uma situação característica da gestação e, por isso, o profissional que acompanha o pré-natal da gestante pode até recomendar a técnica.

6. Óleos e cremes são essenciais para a realização da drenagem linfática?

Não. A maioria das técnicas não preconiza o uso de nenhum produto como coadjuvante. Acredito que o uso de um cosmético não interfira na drenagem, desde que o terapeuta não altere pressão, ritmo e a ordem correta das manobras.

7. Drenagem linfática auxilia no tratamento de celulite?

Sim. Dependendo da fase de desenvolvimento em que a afecção se encontra, a drenagem linfática vai exercer uma função importante na melhora da circulação sanguínea, eliminação de toxinas, diminuição da retenção hídrica e ativação da oxigenação celular.

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