Há mais de meio século, a hidroquinona é conhecida por seu efeito despigmentante. Por isso, quase sempre, seu nome surge quando o assunto é tratamento de melasma ou hipercromias.

Ocorre que, nos últimos anos, comunidades de profissionais de áreas como Dermatologia e Estética estão mais cuidadosas em relação a esse ativo, uma vez que muitos são os efeitos adversos que podem decorrer de seu uso indiscriminado.

O que é hidroquinona?

É um composto orgânico aromático que, em áreas da Saúde, destaca-se como um potente agente despigmentante de aplicação tópica. Também surge como produto da biotransformação do benzeno, elemento proibido como aditivo em combustíveis desde a década de 1970, em função de sua alta toxicidade. 

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Assim, a fumaça do cigarro de tabaco, atividades industriais químicas e petrolíferas e alguns alimentos são as principais fontes de exposição à hidroquinona às quais os seres humanos estão mais comumente expostos. 

Hidroquinona no tratamento de manchas

A hidroquinona atua como um substrato da tirosinase, competindo com a tirosina e inibindo a formação de melanina.

Além disso, interfere na estrutura das membranas das organelas dos melanócitos, acelerando a degradação dos melanossomas. Seu efeito clareador pode ser percebido a partir de um mês após o início do tratamento. É comumente utilizada no gerenciamento de melasma, sardas e lentigo.

Controle e proibição pelo mundo

É importante destacar que a hidroquinona apresenta efeitos colaterais, desde eritema e descamação, até danos permanentes na pigmentação da pele. O principal deles é o risco de ocronose exógena, uma hiperpigmentação negro-azulada fuliginosa localizada na região que teve contato com o ativo.

Além disso, estudos mencionam que seu uso crônico pode desencadear alterações na capacidade de cicatrização do tegumento e catarata. Outra grande preocupação se dá em relação ao surgimento de adenoma renal em função dos metabólitos potencialmente tóxicos, uma vez que a hidroquinona, quando aplicada na pele, é excretada pelos rins.

Nos EUA, o uso dessa substância é rigorosamente controlado, e já foi proibido em pelo menos cinco estados. Em países da União Europeia, a hidroquinona está banida da composição de produtos cosméticos, sendo comercializada apenas sob prescrição médica.  

Em regiões da África e da Ásia — especialmente na Índia –, onde o comércio ilegal de substâncias cosméticas com altas concentrações de hidroquinona é uma preocupação das autoridades sanitárias, a ocorrência de ocronose é mais frequente.

Contudo, acredita-se que a subnotificação e a dificuldade em diagnósticos diferenciais no tratamento do melasma minimizem o percentual de casos nos demais grupos étnicos. 

Risco de ocronose

Um estudo publicado nos Anais Brasileiros de Dermatologia em 2010 mostra quatro casos de mulheres que fizeram uso de composições com concentrações de 2% a 6% de hidroquinona, sem acompanhamento de um profissional da Saúde e sem o uso regular de protetor solar.  

Por meio de exames histológicos, confirmou-se o diagnóstico de ocronose exógena, conforme podemos ver nas imagens:

É fato que existem muitos estudiosos que defendem o uso da hidroquinona, desde que em doses baixas (de 2% a 4%), e sob prescrição. Porém, mesmo esses pesquisadores reconhecem que são necessários cuidados de difícil controle por parte do profissional, como uso de sabonete adequado e outros hábitos diários que devem partir do próprio paciente.

Azelaico: alternativa à hidroquinona

Diante das controvérsias acerca do uso da hidroquinona, muitos estudiosos se propõem a comparar seu uso com o de outros ativos.

Um dos estudos mais recentes indica resultados promissores da silimarina tópica, o que fez com que esse ativo ganhasse certa notoriedade em conteúdos destinados ao consumidor final. Contudo ainda é cedo para conclusões, uma vez que seu mecanismo de ação não está totalmente esclarecido. 

Na minha prática clínica, dou preferência para ativos já consolidados pela Ciência. E, no caso das hiperpigmentações, o azelaico se mostra efetivo. 

De origem orgânica, o azelaico é uma alternativa importante para o tratamento de hipercromias, rosácea e também de acne, uma vez que possui propriedades despigmentante, anti-inflamatória e antimicrobiana.

No seu mecanismo de ação, via inibição da síntese de DNA e oxirredutase mitocondrial, destaca-se a ação seletiva em melanócitos hiperativos e anormais, preservando a integridade nas demais linhagens celulares e de melanócitos sadios. Desta forma, riscos de ocronose exógena e de leucodermia não estão associados ao seu uso.

Hidroquinona 4% versus azelaico 20%

No estudo Comparative study of therapeutic effects of 20% azelaic acid and hydroquinone 4% cream in the treatment of melasma, a autora compara os efeitos do tratamento com hidroquinona 4% com os efeitos do tratamento com azelaico 20%. 

No primeiro e no segundo mês, o grupo tratado com hidroquinona e o que aplicou azelaico tiveram o mesmo desempenho no que se refere à despigmentação da pele. O que chama a atenção é que, a partir do terceiro mês, o desempenho da terapia por azelaico se mostrou superior.  

Na imagem, uma paciente do grupo do ácido azelaico (a, antes do tratamento; b, após 2 meses de terapia) e uma mulher do grupo da hidroquinona (c, antes tratamento; d, após 2 meses de terapia).

Conclusão

A prática clínica da Estética consiste na constante tomada de decisões que tem por base fundamental a segurança do paciente e a efetividade do tratamento.

Mesmo que os efeitos clareadores da hidroquinona sejam indiscutíveis, cabe a nós, profissionais, equilibrar os prós e contras em paralelo à realidade de cada paciente. E, de igual forma, compartilhar esse conhecimento, de modo que o próprio paciente também possa estar ciente das consequências de seu tratamento.

Por fim, este conteúdo não se propõe a contraindicar o uso da hidroquinona, mas a oferecer um ponto de partida para profissionais da Estética que desejam investigar tal composto. 

REFERÊNCIAS

https://www.bbc.com/portuguese/geral-48862472
https://www.scielo.br/scielo.php?script=sci_arttext&pid=S0365-05962010000500003
http://www.surgicalcosmetic.org.br/detalhe-artigo/580/Hidroquinona–vila-ou-heroina-
https://pubmed.ncbi.nlm.nih.gov/23936816/
https://teses.usp.br/teses/disponiveis/9/9141/tde-15012010-130114/publico/Versao_Final_usp.pdf

https://www.scielo.br/scielo.php?script=sci_arttext&pid=S0365-05962010000500017
https://pubmed.ncbi.nlm.nih.gov/30146802/
https://pubmed.ncbi.nlm.nih.gov/22151936/

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